“Todos querem tudo igual, mas igualdade não é justiça”

“Todos querem tudo igual, mas igualdade não é justiça”

“Todos querem tudo igual, mas igualdade não é justiça”

Há mudanças que se sedimentam, outras que são epifenómenos. Ariana Cosme e Rui Trindade, entre muitas outras coisas, professores da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, refletem sobre o impacto que a pandemia teve - e poderá ainda vir a ter - no sistema educativo português.

Fizeram do território escolar o seu espaço de investigação e intervenção. Ariana Cosme e Rui Trindade, professores doutorados da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto foram, mais recentemente, consultores do Ministério da Educação para o Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular. Ariana Cosme é consultora em várias equipas educativas municipais. Rui Trindade é presidente do Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua que regulamenta e certifica a formação de professores que se faz no país.

Por estes dias, a dupla de professores (e avós) tem os olhos postos em mais um arranque do ano letivo. Ariana Cosme diz que “será um ano com tensões”, insistindo na necessidade de um diálogo franco entre a escola e a família. Rui Trindade alerta para o risco da sobrevalorização da dimensão técnica do trabalho com os instrumentos digitais, em detrimento da dimensão curricular e pedagógica. Esta será uma das muitas reflexões sobre as mudanças - que incluíram a não realização de exames no 9.º ano – decretadas em resposta à pandemia. E sobre a possibilidade de poderem vir a ser incorporadas no sistema educativo.

EDUCARE.PT (E): O país está focado no impacto que esta pandemia vai ter na reabertura das escolas, o que estamos a descurar?
ARIANA COSME (AC): Não tenho a certeza de que estamos a descurar alguma coisa. Perdemos perdemos coisas importantes da relação interpessoal, mas em nome de não descurarmos o interesse maior que é o bem estar das populações.

RUI TRINDADE (RT): Aquilo que se está a fazer, em geral, está a ser bem feito. Há um problema que tem de ser resolvido que é a questão da densidade dos alunos portugueses, mas é preciso confiar mais nas direções das escolas do que no Ministério da Educação.

AC: O retomar faseado foi muito importante porque permitiu testar fisicamente os edifícios, perceber o volume de recursos humanos - determinantes - que vão ser precisos recrutar. A escola é um lugar seguro em Portugal. Apesar das dificuldades, ao longo destes 40 anos, o país foi sempre aumentando a qualificação com que atendeu a promessa que faz na Constituição de acolher todos na educação.

E: A escola é um lugar seguro, mas também é um lugar necessário.
AC: A escola é também um instrumento de combate às desigualdades culturais e sociais. As comissões de proteção de menores não se cansam de pedir colaboração à escola. A escola é o lugar onde se percebe se a criança está em sofrimento, se está doente, se tem febre, se não está a comer, se está a ser negligenciada, se está a ser vítima de maus tratos no sentido das obrigações ou físicos. A escola é um lugar muito importante e, portanto, não pode faltar ao país.

RT: A escola e talvez também o centro de saúde são instituições verdadeiramente públicas do ponto de vista da sua universalidade. Se houve problemas com o ensino à distância é preciso compreender que estranho seria não haver. Quando o ensino secundário voltou, os professores - mesmo acima dos 60 anos, que poderiam constituir um grupo de risco - não fugiram ao combate. Tudo isto é sinónimo de esperança. Embora ninguém saiba muito bem o que vai acontecer.

E: Quais são as vossas expectativas?
AC: Será um ano com tensões. As famílias, em geral, confiam nas escolas, portanto, entregarão os seus filhos em setembro. Mas temos direito a ter dúvidas, desconfianças, por isso, tudo tem de ser explicado. Tem de haver muito diálogo para não ficarem feridas na relação entre as famílias e as instituições educativas. Isso seria o pior que poderia acontecer nisto tudo.
Depois, o regresso em setembro tem de passar por encontrar os alunos mais vulneráveis, que estiveram mais alheados do projeto escolar, porque lhes diz pouco, ou porque diz pouco às suas famílias, ou porque a escola, de alguma forma, não conseguiu estabelecer pontes com eles.

RT: Está a haver formação contínua para os professores trabalharem com plataformas, através de um grande programa lançado pela Direção-Geral de Educação em conjunto com a Universidade Aberta. Mas não podemos correr o risco de sobrevalorizar a dimensão técnica do trabalho com os instrumentos digitais e não perceber que por detrás há uma questão de caráter curricular e pedagógico.

Pôr um professor a trabalhar no Teams ou no Zoom é fácil! A grande questão é saber o que é que isto muda do ponto de vista da gestão da relação dos alunos com o conhecimento, o que muda do ponto de vista da gestão das tarefas, o que muda do ponto de vista da questão do feedback. Quando passarmos à vida normal, podemos refletir se essas coisas podem entrar na nossa vida como opção e de uma forma muito bem pensada.

AC: Estamos melhor preparados do que nunca para situações autónomas e flexíveis porque também vínhamos desde há quatro anos a experimentar alguma autonomia ao nível do currículo e da gestão do currículo. Há quatro anos que já não temos o mesmo horário para todos, o mesmo tipo de organização.

E: Está a referir-se à flexibilização curricular, um projeto no qual foram consultores do Ministério da Educação.
RT: Há escolas que estão organizadas por semestres, com modos de avaliação sumativos diferentes daquilo que era habitual; escolas com professores por disciplina, mas também escolas com equipas de professores e escolas que estão a trabalhar por projetos.

AC: Já não estávamos todos a trabalhar com o mesmo formato. Portanto, estamos com mais disponibilidade por parte das entidades gestoras, Ministério da Educação (ME), Inspeção-Geral de Educação, etc., para práticas flexíveis. O ME tinha dito que o grande documento de referência da educação portuguesa era o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, portanto, não era o programa da disciplina A, B ou C. Se este tempo de ausência e os primeiros meses do próximo ano letivo forem olhados a partir deste grande instrumento base…

RT: Mas é muito desafiante. É preciso perceber o tipo de exigência que há nesse documento, nomeadamente, do ponto de vista da relação com o saber. Há uma escola que tem de acabar: aquela escola em que o aluno que lê “Os Maias” e chega a casa e questiona porque leu o livro se não tirou melhor nota do que os que leram os livros amarelinhos e memorizaram o retrato psicológico do Carlos da Maia. Não estou a dizer que é preciso ler “Os Maias”, estou a dizer que é preciso que as crianças e os jovens sejam leitores a sério. Esta é a grande questão, mas isto não se faz de um dia para o outro, muito menos se faz em tempo de pandemia.

E: Os títulos dos jornais nos últimos dois dias destacam a quantidade de notas 19 e 20 nos exames nacionais do secundário. Como veem esta questão?
AC: Na ideia dos maledicentes o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) está a trabalhar mal porque não chumba esta malta toda. Mas é ao contrário. Se existem estas notas significa que a escola está a cumprir bem o seu trabalho e que os instrumentos de avaliação estão cada vez mais adaptados àquilo que se pede ao aluno ao longo do ano.

RT: Embora tenha beneficiado de um facto muito evidente…

AC: Sim, é que só fizeram o exame, e muito bem, os alunos para quem o exame é determinante para prosseguimento de estudos.

RT: E, portanto, estão lá os mais motivados e os que investiram mais nisso.

AC: A verdade é que sujeitávamos milhares de alunos a um exercício que eles desvalorizavam, para o qual não estavam preparados e que feria a escola portuguesa, porque saía com um rótulo de incapaz.

E: Depois da pandemia, será também preciso discutir a utilidade dos exames?
RT: Isso agora… Não se trata de desvalorizar a necessidade do sistema fazer uma aferição, isso faz-se através das provas de avaliação aferida que são das coisas mais interessantes que este país tem e se desvaloriza. Estas provas permitem - a quem estiver disponível para isso - perceber os pontos fortes e fracos dos alunos e as recomendações que lhes estão associadas, sendo essa informação disponibilizada por aluno e por turma.

AC: Uma coisa é discutirmos se os exames são um instrumento interessante enquanto instrumento de desempenho máximo quando todos percebemos que a grande função da avaliação é acompanhar a aprendizagem, portanto, somos adeptos dos mecanismos de avaliação formativa. Os exames têm a ver com a certificação. A função da avaliação na escola portuguesa tem estes dois lados, a função formativa do apoio à aprendizagem e a função certificativa. Para a certificativa, imagino que uma parte possa depender de exames no final da escolaridade, mas pelo meio não tem sentido nenhum, portanto, espero que os exames do 9.º ano não voltem.

E: Tal como essa que sugere, outras mudanças que ocorreram em resposta à situação pandémica podem vir a ser incorporadas no sistema educativo?
RT: O grande problema é se se sedimentam ou não; muitas vezes as mudanças vêm e são epifenómenos. Antes da pandemia, o decreto-lei 55/2018 [Autonomia e Flexibilidade Curricular] tinha instituído um modo de fazer legislação em educação que até agora não existia: a legislação não define um caminho único apresenta possibilidades de fazer. Parece-me que é o caminho que temos de continuar a trilhar.

E: As escolas entendem que já não precisam que lhes definam um caminho?
AC: Há gente que telefona todos os dias para a Direção-Geral de Educação a perguntar como se faz...

RT: Muitos perguntam como é possível o país assim a funcionar a diferentes velocidades. Mas o grande problema é que já funciona, porque uma coisa são os resultados das escolas do interior e outra os resultados das escolas do litoral; uma coisa os recursos das escolas do interior e outra os recursos das escolas do litoral.

E: Não posso deixar de fazer a ponte entre a flexibilidade curricular e as atividades de enriquecimento curricular (AEC’s), pois estiveram bastante envolvidos nessa discussão, tendo publicado o livro “Escola a tempo inteiro: Escola para que te quero?” (2007). Como avaliam o estado dessa que foi também uma grande mudança na educação em Portugal?
RT: Eu sou muito crítico, acho que as AEC’s atuais não têm nada a ver com o projeto que eu sonhei.

AC: É uma medida de indiscutível relevância de política educativa, consagra a responsabilidade do Ministério da Educação de assumir o extracurricular e ficará para a História. Quem na altura (2006) tinha acesso a atividades de Música ou de Inglês (que entretanto se transformou em disciplina obrigatória)? A classe média, média alta. O nosso grande desalento é que as AEC's nascem com prescrições muito escolarizantes. Houve um equívoco do ponto de vista político de que mais escola traria melhor escola. Para nós o alerta era: mais escola, se for mais da mesma, não é interessante.

Entretanto, nasceram projetos muito interessantes. Hoje temos alguns municípios onde as AEC’s são só brincadeira pura, dou o exemplo de Cascais onde sou consultora. Naturalmente, ajudou muito a influenciar esta equipa de educação da Câmara o facto de terem como consultor o professor Carlos Neto que devolveu à escola a responsabilidade de fazer as crianças brincar ao máximo. Matosinhos, há muitos anos que pensa as AEC’s não como trabalho supletivo, por isso, integra-as no currículo, para que nenhum animador cultural se sinta como alguém que vai à escola ao fim do dia, pelo contrário, ele é um profissional a tempo inteiro que garante essa oferta educativa das 9h às 17h.

RT: O problema é que se fala muito pouco das AEC’s. Para mim isso é mau sinal. É sinal de que houve uma espécie de naturalização. Era importante que projetos como os que a Ariana mencionou tivessem mais visibilidade pública. As AEC's atualmente respondem às necessidades das famílias, o que obviamente é importante, mas podiam ser bastante mais do que isso.

E: Aproveitando o título do último ensaio de Boaventura de Sousa Santos, “a cruel pedagogia do vírus”, não nos irá pôr a repensar a educação?
AC: A pensar que são necessárias soluções diferenciadas no país. Porque, por exemplo, é mais fácil um território educativo do interior entrar em depressão. Tenho andado em escolas maravilhosas, reconstruidas pela Parque Escolar, que têm um terço dos alunos que cabem lá dentro. Foi-se deprimindo o território, as pessoas foram fugindo, os professores fugiram, as ofertas educativas fugiram. Há uma realidade muito desigual no país.

RT: Mas o país lida muito mal com medidas de descriminação positiva.

AC: Todos querem tudo igual, mas igualdade não é justiça.


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