Balanço do 1.º período. Muito esforço e muita dedicação


Balanço do 1.º período. Muito esforço e muita dedicação

O arranque do ano letivo foi feito com o coração nas mãos. O empenho da comunidade educativa, o respeito pelas normas, a preparação das escolas, o comportamento dos alunos, sobressaem pela positiva. Mas a falta e a substituição de professores e de assistentes operacionais voltaram a criar dificuldades. Além disso, a recuperação de aprendizagens e a avaliação estão a causar ansiedade.

Como foi o 1.º período do ano letivo depois do ensino à distância e do regresso do ensino presencial? O ministro da Educação garante que foi “extremamente positivo”. “Quero agradecer todo o trabalho feito pelos diretores das escolas, pelas comunidades educativas, pelos docentes e não docentes. Um trabalho incansável de articulação com as famílias, as autarquias que foram inexcedíveis, e com todos os serviços do Ministério da Educação”, afirmou o governante, à margem de uma visita às obras de requalificação da Escola Básica e Secundária Sidónio Pais, em Caminha.

Segundo Tiago Brandão Rodrigues, o regresso ao ensino presencial “é uma aposta ganha”. “Temos de continuar a trabalhar para continuar a ter este ano letivo, num ano de pandemia, com a normalidade possível”. O ministro lembra o trabalho feito com as autoridades de saúde para garantir que as escolas são lugares seguros. “É nesse sentido que continuaremos a trabalhar. A agilizar toda a articulação entre as autoridades escolares e de saúde para que sempre que existam casos suspeitos, ou positivos, a resposta seja mais célere possível”.

“A preparação meticulosa empreendida pelas escolas (diretores, professores, pessoal não docente) conquistou os mais céticos, mesmo os que vaticinavam (desejavam?) o encerramento nos primeiros dias de aulas, o que não veio, felizmente, a ocorrer”, refere Filinto Lima, professor, diretor escolar, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP), em declarações ao EDUCARE.PT.

“Iniciámos uma corrida de fundo, estando a meta ainda longe. Exige-se a continuidade dos sacrifícios assumidos, por forma a assegurar uma educação valente e imortal, epítetos que a Escola Pública, e os profissionais que a servem, tudo fazem por merecer”, sublinha. Em seu entender, os estabelecimentos de ensino e as unidades de saúde local “cooperaram de forma exemplar, gerindo um processo desconhecido, superando os reveses com reconhecido sucesso, fazendo jus a uma nota elevada”.

E os alunos estiveram à altura. “Os alunos revela(ra)m elevada consciência cívica, respeitando globalmente as regras e os procedimentos adotados no interior do espaço escolar, sob a supervisão de adultos ciosos das suas funções”. “Houve turmas a confinar - convocando o ensino não presencial - discentes, professores e funcionários em isolamento, profilático ou ser caso positivo, mas os portões das escolas quedaram-se abertos, cumprindo a sua missão, elogiada por todos”, acrescenta.

Manuel Pereira, diretor escolar, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), fala na constante atualização e apropriação de planos de contingência, no desenvolvimento de atividades letivas e não letivas, e na recuperação e consolidação das aprendizagens não realizadas. “As escolas, em tempo oportuno, criaram planos de contingência pragmáticos e adaptados às suas realidades específicas. Um grande desafio que ocupou tempo em que muitos gozavam merecidas férias, mas que amarrou às escolas, durante todo o verão, as direções com o objetivo de garantir a todos as melhores condições de regresso e trabalho seguro”, refere ao EDUCARE.PT.

A pandemia reafirmou a importância da escola e dos professores. E os problemas de saúde pública também tomaram conta dos dias da educação. “Abrindo feridas que não podemos aprofundar. Podemos apenas prevenir e até ajudar a cicatrizar”. “Ao nível da contenção da pandemia da COVID-19, não podemos estar a identificar como suspeitos todos os alunos que apresentem algum sintoma. Sabemos que a articulação com a linha de saúde é fundamental. Mas há algo de que não podemos, enquanto escola, abdicar. A responsabilidade que nos é atribuída”, comenta.

Para Manuel Pereira, nunca, como agora, faz sentido uma ação ponderada, equilibrada, bem doseada. E as dificuldades do 1.º período são evidentes. Apropriação das medidas de contingência, compreensão do papel de escola e seus profissionais na articulação com as famílias e a saúde, os tempos dos intervalos, entradas e saídas das escolas. E a “consolidação de um ‘novo’ modo de fazer os nossos alunos aprender”. Se há dificuldades, há obrigação de procurar soluções, segundo o dirigente escolar.

“Os últimos meses têm sido muito exigentes. Especialmente para nós profissionais da educação. Hoje, nas escolas, há ensino presencial, ensino à distância e ensino misto. Há ação social escolar e ação social às famílias e à sociedade envolvente”. É fundamental estar à altura dos desafios. É necessário espírito coletivo, “assente num exercício de cidadania solidária entre todos”. “Genericamente os alunos souberam estar à altura dos enormes desafios que a presença na escola, num tempo tão estranho como este, criou. Foram exemplares e fizeram parte da solução na grande maioria das situações”. “Momentos de aprendizagem e crescimento insuspeitos, mas que ajudarão a moldar personalidades mais solidárias e, talvez, mais responsáveis”, acrescenta.

As salas de aula foram organizadas segundo novas regras e com novas dinâmicas. “Identificar um ou outro sintoma deste labiríntico presente, e decidir o que fazer, é uma tarefa muito complexa. Mas as escolas e os professores têm estado à altura! Este também foi um enorme desafio que, com sucesso, levamos a cabo e que garantiu à comunidade que as escolas são um espaço seguro merecendo a sua confiança. Aliás o país foi testemunha da capacidade de resiliência e organização da escola pública que soube resistir”.

O 2.º período está à vista e há expectativas. “No próximo período letivo vamos continuar a dar corpo a este desafio e manter o cumprimento de regras sanitárias fundamentais. Há que continuar a motivar todos os atores, nomeadamente alunos, professores e assistentes. Esperamos ansiosamente a chegada do material informático prometido pelo Governo para, em situações limite, poder garantir a todos os alunos, condições de igualdade que lhes proporcione uma aprendizagem mais equilibrada”, conclui o presidente da ANDE.

Alunos ainda sem aulas
Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), divide o balanço em duas dimensões. Na segurança e bem-estar, as escolas estiveram à altura, não fecharam passado um mês depois do ano letivo começar, como se chegou a prever, preparam-se com os recursos que tinham, e os alunos perceberam que tinham de cumprir regras dentro e fora dos estabelecimentos de ensino. “As escolas são instituições, são sítios, com condições de segurança”, refere ao EDUCARE.PT. “A maioria dos casos [de infeção] não aconteceu nas escolas”, refere. O balanço, nesta dimensão, “é bastante positivo”.

A segunda dimensão, da missão da escola, da igualdade de oportunidades e equidade para todos, é outra história. Há problemas para resolver, questões que se arrastam. “Em termos pedagógicos, há coisas para melhorar”, comenta. Um problema crónico, na sua opinião, é a falta de professores e de assistentes operacionais nas escolas. “Há alunos que ainda não tiveram aulas a uma ou outra disciplina, pela falta de professores e de substituir professores. É um problema estrutural”, refere.

O direito à aprendizagem é inalienável. Jorge Ascenção revela duas situações que demonstram a amplitude do que se está a passar. Um professor infetado que se disponibilizou para continuar a dar aulas à distância, a partir de casa. Alunos em isolamento profilático que não tiveram qualquer contacto com a escola durante esse tempo. “É necessário conter a infeção, como é necessário o acompanhamento da escola”. Por outro lado, o presidente da CONFAP chama a atenção para a recuperação das aprendizagens e avaliações. Nos níveis de ensino mais precoces, será preciso mais tempo, nos anos de exames e provas nacionais, nota-se ansiedade. O tempo de recuperação depende do trabalho que for desenvolvido e preciso decidir como será a avaliação. “Ainda é preciso limar algumas arestas”, refere.

A Federação Nacional da Educação (FNE) dá nota negativa à prestação do governo na gestão da pandemia nas escolas, no final do 1.º período deste ano letivo. O descontentamento foi enviado, por carta, ao Ministério da Educação que acusa de continuar a pensar e a agir como se o país estivesse a viver um período normal e critica por não adotar medidas excecionais que o atual contexto exige.

A nota positiva vai para a comunidade educativa. A FNE realça a “forma extraordinária” como educadores, professores e trabalhadores não docentes “têm respondido com um empenho assinalável às novas condições em que tem sido necessário trabalhar nas nossas escolas”. O que, em seu entender, “deveria merecer não só o reconhecimento formal, mas que sejam adotados mecanismos que de uma forma muito concreta o traduzam com efeitos imediatos”.

A estrutura insiste que os parceiros da Educação têm de ser ouvidos pela tutela em relação ao 2.º período. Há matérias, sublinha, sobre as quais não vai desistir de exigir as respostas adequadas “às especiais e difíceis circunstâncias que vivemos”, e garante que não deixará de apresentar propostas “para que se determinem as soluções essenciais para que a saúde e a segurança sanitária se preservem, para o desenvolvimento no contexto das condições possíveis, da concretização de uma escola inclusiva”, refere em comunicado.

Os professores devem estar concentrados no trabalho com os alunos e ser dispensados de tudo o sejam solicitações de outro tipo. E é preciso solucionar a situação dos alunos que permanecem sem aulas. “Também é preciso que as escolas estejam dotadas dos técnicos especializados, dos assistentes técnicos e dos assistentes operacionais que assegurem o funcionamento de todos os serviços que as escolas devem pôr à disposição dos seus alunos neste contexto e com as especiais exigências que nestas circunstâncias uma escola inclusiva deve garantir”, reforça.

Meses difíceis, informações negadas
A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) vinha a exigir o rastreio à comunidade escolar, avançou com uma petição, o assunto foi discutido na Assembleia da República, e, no último dia de aulas do 1.º período, foi aprovada uma resolução que recomenda ao Governo a elaboração de um programa destinado a disponibilizar testes gratuitos à comunidade escolar, bem como a realizar rastreios periódicos nos estabelecimentos de ensino. A 7 de janeiro, a FENPROF reúne-se com o ministério precisamente para fazer um balanço do 1.º período.

A organização representativa da classe docente espera que a tutela acate a recomendação para que o 2.º período letivo se inicie “em adequadas condições de prevenção e de segurança sanitária”. O 1.º período terminou e, segundo a FENPROF, “foram meses difíceis” que exigiu um esforço muito grande de professores, alunos, trabalhadores não docentes, famílias. “Um período em que só o Ministério da Educação e, contraditoriamente, a DGS demonstraram não estar à altura do tempo difícil que se vive, negando informação sobre a situação nas escolas, mantendo-se silenciosos ou desvalorizando a situação, apesar de, em mais de mil escolas, terem existido casos de COVID-19, na maior parte delas sob a forma de surto”, sustenta no seu site.

O ano letivo começou com meses de ensino à distância, com orientações para recuperar aprendizagens não consolidadas. Um arranque problemático, segundo a FENPROF que enumera vários pontos. “Milhares de alunos não tiveram professores a algumas disciplinas, alguns durante todo o 1.º período” e “os apoios a alunos que foram deles privados no ano anterior não foram reforçados este ano”. A FENPROF alerta ainda para o facto de os recursos humanos não terem sido reforçados, como era expetável.

“O Ministério da Educação, apesar da falta de professores e/ou de recursos acrescidos, desperdiçou o contributo de centenas de docentes de grupos de risco”, recorda. A Federação adianta ainda que “uma percentagem elevada de alunos esteve temporariamente ausente por se encontrarem de quarentena ou isolamento profilático”.

“Este foi, ainda, um período marcado pela aprovação de um orçamento para a Educação que manteve Portugal abaixo do limiar de financiamento recomendado internacionalmente (intervalo de 4% a 6%) e pelo arrastamento de um bloqueio ao diálogo e à negociação que faz parte do embargo à resolução de problemas que afetam a comunidade escolar, em geral, e os professores, em particular”.
 


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