Os recursos para as aprendizagens e a sua efetiva utilização


Os recursos para as aprendizagens e a sua efetiva utilização

Há mais computadores nas escolas, mas apenas 7% dos alunos usam as novas tecnologias em atividades relacionadas com o estudo. Os desafios são enormes. Reforçar as competências digitais, em todos os ciclos de ensino, é uma das estratégias.

Os recursos que as escolas e os professores podem utilizar são preciosas ferramentas para motivar, facilitar e enriquecer a aprendizagem de crianças e jovens, em todos os níveis de ensino. O relatório “Estado da Educação 2019”, do Conselho Nacional de Educação (CNE), dedica um capítulo a alguns desses meios ao dispor das escolas. Os instrumentos digitais ganham uma importância cada vez maior a cada dia que passa.

Apesar de um ligeiro aumento do número de computadores nas escolas do Continente, mais 5 134 de 2018 para 2019, a percentagem de equipamentos com mais de três anos é ainda muito significativa, de 83,7%. Em 2019, 92,5% dos computadores das escolas tinham ligação à internet e o número médio de alunos por cada computador era de 5 no ensino público e de 4,3 no privado.

Um inquérito da União Europeia, relativo a 2017-2018, concluiu que as escolas portuguesas estavam mais equipadas e conectadas digitalmente, em todos os níveis e ciclos de ensino, do que a média dos países membros, com particular destaque para o Ensino Básico. Apesar disso, um estudo, realizado em 2018, indica que apenas 7% dos alunos portugueses indicaram utilizar as novas tecnologias para atividades escolares, abaixo dos 11% da média internacional.

“A presença das tecnologias digitais em todos os domínios da sociedade, já classificada como a quarta revolução industrial, é uma realidade à qual a escola não pode escapar. Por um lado, pela influência que estas tecnologias têm no modo de ensinar e de aprender e, por outro, porque é suposto a escola preparar os jovens para a vida no mundo digital e para a inserção no mercado de trabalho, de modo a evitar a exclusão social dos que não detêm competências neste domínio”, lê-se no relatório do CNE.

No final de 2020, o ministro da Educação anunciou a aquisição de mais 260 mil computadores para as escolas, depois da distribuição de 100 mil equipamentos durante o 1.º período, no âmbito do programa Escola Digital. Já no início de 2021, Tiago Brandão Rodrigues garantiu que, nas próximas semanas, será feito um reforço da internet em várias escolas do país. “O que está a acontecer, neste momento, é uma verdadeira reforma em termos de digitalização da nossa escola e é esta escola digital que nós queremos a funcionar”, referiu.

A Federação Nacional da Educação (FNE) acompanha este processo e avisa o Governo que é necessário contratar, pelo menos, um técnico informático para cada agrupamento escolar de forma a garantir a manutenção e funcionamento dos computadores. “Não teremos uma escola digital se lá só colocarmos computadores. Não basta investir em equipamentos, também é preciso investir em pessoas e são precisos técnicos especializados em informática”, refere João Dias da Silva, secretário-geral da FNE. “Não há escola digital com recurso a habilidosos, têm de ser técnicos que saibam do que se trata e que garantam sistematicamente a manutenção e funcionamento dos equipamentos”, acrescenta.

Colaboração e diálogo, educação para o pensamento crítico
Nos primeiros dias de 2021, a Comissão Europeia anunciou o lançamento do projeto “Assistência para o Desenvolvimento Escolar” que pretende promover a inovação digital em “escolas pequenas ou rurais” de seis estados-membros. Portugal está nessa lista. Até fevereiro de 2023, os parceiros do projeto vão investigar e avaliar, em conjunto, teorias e práticas de assistência e construir e animar comunidades com base em quatro escolas digitalmente avançadas, em cada país, que orientarão quatro escolas em desenvolvimento.

Portugal tem vindo a registar um progresso na dimensão do capital humano, devido a uma maior percentagem de licenciados em TIC e a uma melhoria no nível básico de competências digitais, segundo o relatório do CNE. Contudo, quando comparado com os padrões europeus, o país continua a ter de melhorar o seu desempenho, sobretudo em matéria de utilização de serviços de internet. Cerca de metade da população (48%) não possui competências digitais básicas. Uma das estratégias passa precisamente por estimular e reforçar os domínios da literacia e competências digitais em todos os ciclos de ensino e de aprendizagem ao longo da vida.

Metade dos sistemas educativos europeus tem políticas que promovem a existência de um coordenador digital nas escolas. Portugal não se encontra nesse grupo, observa o CNE. “Os diretores das escolas e os coordenadores digitais podem ter uma ação relevante na mudança ao nível das infraestruturas digitais e do seu uso para o ensino e aprendizagem. Daí a importância de promover a formação dos primeiros e de providenciar a nomeação dos segundos”, sublinha, a propósito.

Os dispositivos móveis têm sido progressivamente integrados nos sistemas formais de ensino. Esta utilização, por um lado, coloca desafios, como um eventual fosso entre alunos com aparelhos mais e menos avançados, e, por outro, tem consequências. Dos 7% dos alunos que indicaram utilizar as tecnologias para atividades escolares no espaço da escola, a maior parte (73%) utiliza-as para fazer pesquisas na internet, pelo menos uma vez por semana.

O CNE toca num pormenor importante. “Se considerarmos que a literacia em computadores e informação se refere à capacidade de um indivíduo utilizar computadores para investigar, criar e comunicar, podemos admitir que, nas escolas portuguesas, o uso das TIC com a finalidade de criar e comunicar é pouco frequente, o que poderá dever-se à falta de recursos tecnológicos ou à incapacidade de os usar como recursos para a aprendizagem”.

A Direção-Geral para a Educação e a Cultura, da Comissão Europeia, avaliou os efeitos da tecnologia digital na empatia e na capacidade de atenção das crianças. A estrutura verificou que o uso da tecnologia faz diminuir a empatia das crianças quando usada de forma antissocial, quando o tempo passado frente a um ecrã reduz as interações face a face, e quando o seu conteúdo é violento ou existe o perigo de cyberbullying. Mas há o outro lado. Ou seja, o uso da tecnologia pode potenciar o aumento da empatia se forem criados ambientes de aprendizagem interativos, que favoreçam a colaboração e o diálogo entre as crianças e jovens, e se houver uma educação para os media e para o pensamento crítico.

“O mau uso das tecnologias também pode afetar a capacidade de atenção e potenciar problemas de hiperatividade, o que pode ser acautelado, desde que o uso fora do contexto educativo não ultrapasse as duas horas diárias e se encontrem estratégias que promovam a colaboração entre os alunos”. O desafio está em tirar proveito do uso das tecnologias, acautelando eventuais efeitos nefastos, como a cyber-dependência, o cyberbullying, ou a invasão da vida privada.

Bibliotecas escolares e planos de leitura e cinema
Além dos dispositivos eletrónicos, há outros recursos para a aprendizagem nas escolas. As bibliotecas escolares são um exemplo e essa rede registou mais 26 novos espaços, atingindo os 2500 em 2019, a maior parte em estabelecimentos públicos. O CNE lembra, no relatório, que as bibliotecas escolares “têm-se afirmado como um recurso de apoio às aprendizagens para a melhoria dos resultados escolares, promovendo o desenvolvimento de competências nas áreas da leitura, dos media e da informação”.

As bibliotecas são adaptadas às exigências tecnológicas com diversos equipamentos eletrónicos e, em 2019, todas registaram um crescimento quantitativo nessa área. A subida mais significativa é a do número de dispositivos multifunções, como impressoras e scanners, que cresceu 80% relativamente a 2017.

O Plano Nacional de Leitura, lançado em 2006, como resposta à preocupação com os baixos níveis de literacia, é outra ferramenta de aprendizagem. Nas ações desenvolvidas, em 2019, destaca-se o concurso nacional de leitura com 2 mil escolas envolvidas e mil obras lidas e a atualização do catálogo de livros recomendados - 2016 livros apreciados e 872 títulos recomendados. De acordo com o relatório de 2018, nesse ano, participaram nas ações 5437 estabelecimentos de ensino, 19 996 alunos, 1424 docentes, bibliotecários e outros responsáveis, tendo sido realizadas 789 iniciativas e ações de formação.

O Plano Nacional do Cinema é outro recurso importante que, em 2018/2019, atingiu as duas centenas de escolas, envolvendo mais de 870 professores, cerca de 60 mil alunos, e mais de 60 salas de cineclubes, auditórios, cineteatros, para visionamento de filmes. As iniciativas deste plano, em contexto escolar, pretendem valorizar os processos criativos próprios do cinema e a reflexão que estabelece entre as artes, a cultura e as grandes questões civilizacionais.

A adesão das escolas a este projeto é voluntária e decorre de uma candidatura prévia. A equipa de trabalho, que operacionaliza o plano, disponibiliza uma lista de filmes recomendados em cada ano letivo, elaborada de modo a garantir a relevância das obras no contexto da produção cinematográfica e da história do cinema, a diversidade de formatos e géneros, bem como a divulgação de obras de produção nacional.
 


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