Está a pandemia a afastar os pais da escola?


Está a pandemia a afastar os pais da escola?

Mesmo enquanto o ensino se manteve presencial, a maioria das escolas barrou a entrada dos pais. Mas a comunicação digital teve o condão de conseguir aproximar, embora à distância.

Quando as escolas reabriram, em setembro de 2020, a maioria dos agrupamentos deu um sinal muito claro do que seria, a partir daí, a relação escola-casa: digital, online, à distância. Foi assim que decorreram as reuniões de apresentação, nos diversos níveis de ensino, com parcas exceções. “Lembro-me da diretora de turma dizer que haveria na mesma um dia de atendimento, uma hora por semana, como dantes, só que ainda não sabiam como o iriam fazer”, conta Sandra Marques, mãe de duas crianças gémeas, a frequentar o 7º ano num agrupamento do distrito de Leiria. As semanas passaram e a solução encontrada foi usar a mesma plataforma que haviam experimentado para a reunião conjunta com todos os encarregados de educação: o teams, que de resto serviu de meio de comunicação para a aprendizagem durante os meses de ensino à distância.

Mas sabendo que os agrupamentos têm autonomia e flexibilidade para escolher o tempo e o modo, o país divide-se entre aqueles que tudo fizeram para manter a proximidade com as famílias e os que seguiram o curso dos acontecimentos, optando por restringir o espaço escola a alunos, professores e auxiliares.

“Acredito que também depende muito de cada diretor de turma, da relação que estabelece com os pais. Eu sempre troquei contactos com eles, desde há muitos anos. Por isso, este ano só não nos encontramos presencialmente. Mas talvez até fale agora com mais pais do que dantes”, revela João Garcia, professor numa escola secundária da grande Lisboa.

O 1º ano em pandemia: duplo desafio
E para quem entrou em plena pandemia no 1º ano do ensino básico? “Foi um duplo desafio”, admite Pedro Jerónimo, pai do pequeno José, que até há poucos dias frequentava uma escola pública na Covilhã. Sair do pré-escolar e entrar num novo nível, numa nova escola, já era o bastante. Mas fazê-lo no meio de uma pandemia, deixou toda a família expectante. E afinal, “correu tudo bem. O professor manteve sempre um contacto muito próximo connosco, através do e-mail, do telefone. Na verdade só não entramos na escola. Mas uma das vantagens de viver no interior é isto de fazermos juntos o caminho para a escola e para casa juntos. O que é uma grande vantagem”, sublinha este pai.

Entre as associações de pais, a pandemia também está a ser gerida dia após dia. E o afastamento da escola é muitas vezes alvo de discussão. “Eu não diria que é só pela pandemia, mas a pandemia agrava tudo. A tranquilidade e a serenidade; agrava o medo, o pânico, e algum afastamento daquilo que é essencial”, afirma Jorge Ascensão, presidente da Confap (Confederação das Associações de Pais).

“Por um lado os pais estão muito focados na segurança, de alguma forma com esta espuma toda que se gera na comunicação social.

Uma parte da sociedade alinha na ideia de que a escola é um perigo. Contrariamente a tudo o que é o espírito de missão da escola, esquecendo-se do perigo em que consiste fechar uma escola, do impacto que terá no futuro dos seus filhos”, acrescenta aquele responsável, que defendeu até ao limite a permanência das escolas abertas, lembrando que foi muito notório o foco nessa perspetiva de segurança, em contraponto com o afastamento “daquele que deveria ser o objetivo principal de uma escola enquanto fator de desenvolvimento, a todos os níveis”.

Do desinteresse à (in)disponibilidade
É certo que “os pais já não estavam tão envolvidos na escola quanto deveriam”, considera Jorge Ascensão, que fala num conceito de apropriação da escola, por diversas razões: “por negligência, por desinteresse, mas também por impossibilidade e por contextos laborais, por exemplo muitos pais estão distantes da escola. Levam os filhos à escola, são capazes até de perguntar se correu tudo bem, quando os vão buscar, ficam todos satisfeitos com as notas, mas o conhecer a escola ou a escola conhecer a família, ainda tem muito caminho para andar”.

E esse é um caminho que tem de ser feito nos dois sentidos, não há dúvidas. Para uma maioria, ainda prevalece o conceito de escola como local onde se entregam as crianças, “estão lá os professores, entrego os meus filhos e agora é com eles”, lembra o responsável da Confap.
Mas a pandemia veio abanar também o que era esse conceito. Se, por um lado, deixaram de puder passar os portões da escola, por outro há uma aproximação virtual que não pode ser menosprezada.

“Os pais agora acompanham a partir de casa e aprenderam a ligar o computador, utilizando-o também para esse fim.Conseguimos estar uma hora ou duas em conversa, com associações, por exemplo. E também temos escolas que através das aplicações falam muito com os pais. É claro que depois depois há o contrário”, enfatiza o responsável da Confap.
Parece claro que, quer na perspetiva dos pais, quer da escola, “isto é um caminho progressivo”, que ainda agora começou - e que por estes dias conhece uma nova etapa.

Embora o movimento associativo contabilize já 45 anos (nasceu com a revolução de Abril), talvez nunca tenha atingido uma maturidade suficiente para se impor, em todas as frentes. Porém, muito caminho foi percorrido nessa ligação entre a escola e os pais. “Ainda há pouco descobri um normativo, do final dos anos de 1970, em que para participar na vida da escola os pais tinham que estar numa associação de pais. Felizmente hoje não é assim”. Cresceu e consolidou-se “esta noção de que a educação das crianças e dos jovens é um compromisso. E tem que ser um compromisso assumido também por parte da família”, conclui Jorge Ascensão.

Mas as dificuldades manifestam-se ainda a diversos níveis, muitas delas acentuadas com a pandemia. Por exemplo, das cerca de 2000 associações de pais existentes em todo o território nacional, “só metade comunicam com a Confap”.Entretanto, há outros números que preocupam quem se dedica ao movimento associativo dos pais e à ligação com a escola: “Só à volta de 20% de pais e encarregados de educação é que acompanham os assuntos das associação de pais”.

“Um pecado que algumas escolas cometeram, afastar os pais das reuniões, dos conselhos de turma”, sublinha aquele responsável. Ainda assim, prefere enfatizar o copo meio cheio - “há pais que raramente participavam e agora participam mais, porque podem fazê-lo online e a partir de casa”.

Uma cadeira vazia, um ecrã ligado
Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, acredita que a pandemia afastou os pais “nalgumas circunstâncias, por estarem impedidos de entrar num espaço físico”.

“Em algumas escolas as associações de pais tinham uma salinha para reunirem e deixaram de o poder fazer. Mas isso depende muito do plano de contingência de cada escola. Os diretores de turma reúnem com os pais online, e a hora de atendimento semanal também pode ser online”. Filinto Lima defende, porém, que “a razão principal é os pais não terem muita proximidade com a escola, já anterior à pandemia”, embora saliente que “depende muito de cada agrupamento e do plano de contingência”, permitir ou não a entrada dos pais.

A verdade é que falta uma peça nesse puzzle que desde sempre se habituou a ver montado: “”eu gostava de ver os pais ali sentados numa cadeira à espera do professor, para falarem com ele na hora de atendimento. Isso era positivo. Agora não se vê. Vê-se o diretor de turma e um ecrã a falar com o pai, na melhor das hipóteses”.

E haverá maneira de contrariar esse estado de coisas que parece estar para durar? “Os pais sabem muito bem que isso é fruto do momento que estamos a viver. Ainda nunca vi nenhum pai a importunar-se. Os pais entendem. Por outro lado, acredito que há um contacto mais assíduo por telefone. E como os pais não vêm, o diretor de turma sente-se ainda mais obrigado a ligar. Eu gostaria que isto mudasse...mas não sabemos como nem quando”.


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