“Os miúdos sabem voar, a escola dá-lhes as asas, deixem-nos voar”


“Os miúdos sabem voar, a escola dá-lhes as asas, deixem-nos voar”

Federação Nacional da Educação organizou um ciclo de conferências online com ex-ministros da Educação. Os caminhos para a escola depois da pandemia são o mote das conversas que têm tocado vários assuntos, como o papel da educação, a valorização dos professores, os futuros invisíveis.

“Que caminhos para a escola na pós-pandemia?” é uma interrogação e é o tema central do ciclo de “webinários” que a Federação Nacional da Educação (FNE) e o Canal4 da Associação para a Formação e Investigação em Educação e Trabalho estão a promover com um painel de oradores composto por ex-ministros da Educação. A pandemia mostrou uma série de desafios às escolas e há muitas perguntas a pairar. Como gerir os meios tecnológicos no ensino? Que mudanças implementar na formação de professores? Como adaptar a escola do futuro aos recursos humanos? Como incentivar a inovação no sistema educativo? David Justino fala a 11 de março e Nuno Crato no dia 25. Margarida Mano fecha as conferências a 8 de abril. Sempre das 17h às 18h.

Eduardo Marçal Grilo, ministro da Educação de 1995 a 1999, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE) entre 2002 e 2005, atual presidente do conselho geral da Universidade de Aveiro, foi o primeiro convidado e deixou bem claro que não ficou nada surpreendido com a capacidade de as escolas enfrentarem questões e problemas complexos, como os que a pandemia provocou, nomeadamente através de soluções alternativas aplicadas por força das circunstâncias.

O ex-governante não usa o termo ensino à distância, prefere “uma espécie de ensino remoto de emergência” porque é isso que, na sua opinião, aconteceu e ainda acontece. No entanto, as adversidades podem, por vezes, ser olhadas como oportunidades. As tecnologias e metodologias agora utilizadas no ensino devem, em seu entender, ser testadas e analisadas para perceber de que forma podem enriquecer o ensino presencial.

A comunidade escolar reorganizou-se, adaptou-se, respondeu às alterações que o novo contexto exigiu. É uma nova realidade que exige uma reflexão de fundo sobre o papel das escolas e dos professores, em todas as suas dimensões. “A pandemia veio destapar algumas coisas em Portugal, destapou a pobreza e as desigualdades. A escola não é capaz de combater, per si, estes dois aspetos tão negativos na sociedade portuguesa, mas tem um papel a desempenhar, uma forma de combater as desigualdades, que é educando as pessoas. À tutela cabe avaliar e apoiar as escolas, organizações fundamentais para o desenvolvimento do país”, referiu.

Marçal Grilo tem uma certeza que é a importância da educação de base e, na conferência, abordou as escolas entendidas como organizações e a autonomia como um valor real para que possam desempenhar um papel ainda mais relevante face às imprevisibilidades do futuro. “Temos escolas fortes, escolas como verdadeiras organizações, lideranças fortes, um corpo docente coeso, estável, qualificado”. As escolas precisam de um plano educativo e de um plano de ação adaptados aos problemas e às condicionantes das comunidades que servem. As escolas devem entender a sua missão. “Os miúdos sabem voar, a escola dá-lhes as asas, deixem-nos voar que eles sabem voar. Eu, pelo menos, gostava muito de os ver voar”, sublinhou.

“Cada escola é uma escola. Quanto melhor for conhecimento da comunidade, melhor é o impacto”. Para o ex-ministro da Educação, as escolas devem ter capacidade e liberdade para desenhar e executar as suas próprias ideias e projetos. “As escolas não podem ser tuteladas como braços da tutela”, avisou. As escolas, em seu entender, deviam poder escolher os seus próprios professores, bem como técnicos, psicólogos, informáticos.

A pandemia como fonte de inspiração
Júlio Pedrosa foi ministro da Educação em 2001 e 2002, também presidiu ao CNE, hoje é presidente do conselho geral do ISCTE, e considera que a educação é o recurso mais preparado e capaz para arranjar soluções para os impactos que este tempo está a criar. A pandemia pode ser um ponto de partida. “A pandemia, sem dúvidas, trouxe perturbações, mas tem de ser usada como fonte de inspiração para pensar o futuro que vem a seguir”, disse durante a conferência para a qual foi convidado. “A pandemia vai deixar marcas e vai deixar registos de experiências para o nosso futuro que ninguém deveria minimizar”, acrescentou.

O encerramento das escolas tem impactos que ninguém pode ignorar. O aumento das diferenças e desigualdades entre alunos é uma das consequências. “Vamos ter crianças diferentes depois disto”, garante o ex-ministro. “E não podemos esquecer a formação dos pais e encarregados de educação. Temos de criar boas políticas de envolvimento das famílias com as escolas. A confiança mútua é o bem mais escasso da sociedade portuguesa. E deixo aqui um caminho: procurem as metodologias, não as tecnologias”.

Segundo Marçal Grilo, as escolas precisam de projetos educativos próprios, serem capazes de analisar os problemas dos seus alunos, perceberem que não se pode tratar igual o que é diferente. E é necessário também aumentar o prestígio da profissão docente e combater o paradoxo de, por um lado, a opinião pública reconhecer a importância dos professores, e, por outro, os cursos de formação não atraírem os melhores. “A escola é um local de elite porque é um local onde existe uma organização que é essencial para o futuro do país e para o futuro dos miúdos”.

Júlio Pedrosa realça a importância da qualidade do desenho e concretização de estratégias e políticas, refere que é preciso dar muita atenção à qualidade das medidas do sistema educativo. Na sua opinião, é fundamental aprofundar o que existe como sistema educativo diversificado. “Desejo viver numa sociedade de gente bem-educada, bem formada. A educação é o recurso mais sólido e essencial para isso acontecer. Hoje temos a pandemia, amanhã teremos outras exigências”. E o sistema educativo tem de estar preparado para responder à diversidade.

Não desistir, aprender com os erros
Como olhar para o futuro? Marçal Grilo fala de uma escola onde se aprende mais e em que se adquirem valores, atitudes, comportamentos. Uma forma de estar, de ensinar, de aprender, de conviver. O rigor, a responsabilidade, a liderança, o sentido crítico, o esforço, a dedicação, a ideia de nunca desistir, uma cultura de exigência que começa em casa. Fazer melhor hoje do que se fez ontem para tentar fazer melhor amanhã do que se fez hoje.

O ex-governante fala em alunos proativos e não reativos, com capacidade de propor e imaginar, não ter medo de falar, não ter receio de arriscar, não desistir, perceber onde se falhou para tentar corrigir. O sentido ético, o respeito pelos outros e pelas suas convicções, a solidariedade, a liberdade, a democracia. “A educação é talvez a forma mais eficaz de promover a ascensão social”.

“Estamos a entrar numa era em que a educação, como qualquer outro setor da sociedade portuguesa, tem de apostar na preparação para um campeonato em que só podemos participar jogando muito bem”, refere Júlio Pedrosa que vislumbra três campos distintos de treino, ou seja, formação continuada, rede de instituições, valorização das profissões. A nível do poder político, pede uma “intervenção criativa, participada, transparente do Estado para responder a tempo às exigências do tempo que vivemos e do futuro”.

“Cabe a todos a responsabilidade de aprender com as exigências que estamos a viver e dar o valor devido à boa preparação, à dedicação de educadoras e educadores, de professoras e professores, e à missão do sistema de educação e formação para garantir o futuro que queremos e desejamos”, sustenta Júlio Pedrosa. “Temos que olhar para os futuros invisíveis”. E meter pés ao caminho.


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