Opinião JUTTA URPILAINEN "Voltar a estudar, mas não como antes"

JUTTA URPILAINEN - Comissária europeia das Parcerias Internacionais

«Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo». Estas palavras, da vencedora do Prémio Nobel da Paz Malala Yousafzai, não podiam ser mais verdadeiras. Proporcionar às crianças de todo o mundo acesso a uma educação de qualidade é a única forma de podermos construir um mundo mais sustentável, equitativo e pacífico.

O encerramento das escolas por todo o mundo em virtude da pandemia de COVID 19 causou enormes perturbações no setor da educação, tendo afetado mais de mil milhões de alunos.

Aqueles que já regressaram à escola deparam-se agora com novos problemas: uso de máscaras, distanciamento social, escassez de meios para a lavagem das mãos e receio de ficarem doentes. Porém, estas crianças ainda são, de certa forma, as que têm alguma sorte. Os problemas que enfrentam são muitíssimo menos graves do que o impacto catastrófico a longo prazo da falta de acesso à educação, nomeadamente nos países mais pobres ou afetados por conflitos ou crises.

Sabemos, de crises anteriores, que quanto mais tempo as crianças estão sem escola menos probabilidades há de virem a regressar. Sabemos também que as crianças que não vão à escola estão expostas a maiores riscos de violência, abuso e exploração. Em circunstâncias tão adversas, teremos, ainda assim, possibilidade de vencer a batalha pela educação das nossas crianças? A resposta não pode deixar de ser um rotundo «sim».

Para fazer face à pandemia mundial, a União Europeia e os seus Estados-Membros – a Equipa Europa – já demonstraram a importância do trabalho conjunto para obter melhores resultados. Dado o longo historial de resultados positivos obtidos pelas parcerias que estabelecemos, a UE e a UNICEF podem, em conjunto, fazer a diferença de forma duradoura quanto aos resultados da educação em todo o mundo.

Importa adotar desde já algumas medidas para salvaguardar o futuro das crianças, tirando partido dos esforços já envidados e permitindo abrir perspetivas novas e inovadoras. Isto implica a realização imediata de fortes investimentos, que permitam às crianças mais vulneráveis reingressar logo que possível no sistema de ensino. Implica garantir que as escolas são seguras e que os professores dão resposta às necessidades dos alunos.

Recentemente, pudemos assistir a mudanças surpreendentes, com muitos governos a proporcionarem educação pela Internet, televisão, rádio e até pelos telemóveis.

Pelo que podemos ver, anunciam-se os primeiros sinais de retoma. É chegado o momento de reimaginarmos os sistemas de ensino, abraçarmos as novas tecnologias, eliminarmos os obstáculos e proporcionarmos sistemas de ensino modernos a todas as crianças.

Temos igualmente de colmatar o fosso existente em matéria de educação à distância. Importa tirar partido e investir no potencial da aprendizagem à distância, não só das competências de base - como a leitura e a matemática - mas também das competências digitais, empresariais e profissionais, para que os jovens possam ter acesso ao mercado laboral.

Acima de tudo, os orçamentos consagrados à educação devem ser protegidos dos cortes impostos pela crise económica mundial. A educação deve ser encarada como parte integrante do plano de recuperação da COVID-19: em vez de retirarmos verbas à educação, devemos efetuar um investimento ainda maior no reforço dos sistemas de ensino. A educação é essencial ao desenvolvimento humano e está subjacente a todos os investimentos efetuados pela UE na cooperação internacional. «Reconstruir melhor» aplica-se tanto à educação como a qualquer outro setor.

A gravidade da presente crise exige uma resposta global e coordenada. A UE e a UNICEF querem estar na linha da frente da resposta a dar. A comunidade educativa deve delinear, em conjunto, um plano de ação global que proporcione a todas as crianças educação equitativa e de qualidade.

Lutar por este nobre objetivo implica reconhecer que as coisas não podem ficar como estavam. Se retirarmos os devidos ensinamentos da situação em que nos encontramos, poderemos reformular e criar melhores sistemas de ensino, tanto para esta como para as próximas gerações.



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