Pediatra Daniel Soares palestra sobre resposta das escolas a alunos com perturbação do espectro do autismo

As escolas estão preparadas para receber alunos com perturbação do espectro do autismo (PEA)?

Foi uma das temáticas debatidas na palestra que decorreu no passado dia 15 no pequeno auditório do Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, que teve como orador o médico pediatra do Centro Hospitalar do Oeste (CHO), Daniel Soares.

Para este profissional de saúde ainda “há muitas dúvidas, muitas necessidades e as escolas estão mais organizadas e despertas e atentas para estes temas, e mesmo tempo percebem as suas dificuldades”. “Percebendo as suas dificuldades conseguem de alguma forma organizar-se com equipas multidisciplinares e isso é que é importante, para saber lidar com as crianças individualmente”, disse o pediatra das Caldas.
“A forma de ajudar é encarar o aluno como um ser único, com necessidades especiais de apoio, mas que variam de caso para caso”, salientou.

Daniel Soares foi o orador convidado da palestra com o título “Integrar na diferença: compreender o autismo”, organizada pela União das Freguesias de Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório. A iniciativa contou com a presença de professores e encarregados de educação.
A sessão gerou um debate produtivo entre docentes, técnicos, encarregados de educação e pais que têm crianças com espectro do autismo.
Segundo uma mãe que tem um filho com 18 anos com espectro do autismo, um problema que enfrenta agora é uma resposta e alternativa de formação/ocupação.
Outra encarregada de educação de um filho autista mostrou preocupação com as dificuldades que a escola por vezes tem, defendendo que “deve estar preparada para dar resposta e oportunidades a todos os alunos, respeitando as suas diferenças e valorizando os seus saberes”.
Uma docente de uma escola das Caldas referiu o grande desafio de lidar com um aluno com PEA, que precisa de uma atenção maior numa sala com 28 estudantes.
Houve outra professora que falou da importância de trabalhar em rede com a família dos alunos com problemas porque é “a família que sabe quais são as expetativas das crianças”. “Cada vez mais é necessário chamar os pais e falar com eles sobre a criança, porque se não houver essa união entre pais e escola é muito mais difícil ajudar o estudante com espectro do autismo”, referiu.

“A mudança é um problema muito sério”

O médico pediatra iniciou a palestra explicando o que é a PEA, descrevendo que é uma condição que perturba o desenvolvimento global, que surge precocemente e que se manifesta num conjunto de caraterísticas que diferem de criança para criança.
É caraterizada por apresentar vários sintomas, nomeadamente na interação social, com a ausência de linguagem corporal ou outras comunicações não verbais, fracas capacidades interpessoais e de comunicação (partilhar ideias e sentimentos, fazer amigos)”, apontou, acrescentando que “tem ainda dificuldades em detetar, perceber e responder aos sentimentos dos outros”.
Quanto à linguagem e comunicação, a criança apresenta fracas capacidades de compreender e se expressar através de forma verbal. Tem uma linguagem estereotipada, repetitiva e “tipo papagaio”. Tem uma expressão verbal pobre e na construção frásica (confusão entre “tu” e “eu”), pronúncias e entoações peculiares (discurso gritado, falta de consoantes e vogais) e discurso unidirecional (não espera resposta).
No que concerne ao comportamento, Daniel Soares referiu que é rígido e ritualista (sempre o mesmo caminho, os mesmos rituais), painel limitado de interesse, relutância em aceitar novas situações. “Toda a mudança, mudar de roupa, mudar de casa, mudar de escola – é um problema muito sério para eles. Às vezes, uma criança com espectro do autismo não quer comer. Quando se vai investigar, descobre-se que agiu assim ao dar-se conta de que a comida não estava colocada no prato como é habitual”, explicou.

O médico pediatra defendeu que a prescrição de testes genéticos para diagnóstico etiológico de PEA deve ser devidamente fundamentada.
Segundo este responsável, as manifestações da PEA modificam-se com a idade e é possível o diagnóstico “fidedigno a partir dos 14 meses”.
“Mesmo aqueles com diagnóstico não confirmado aos 3 anos mantêm outro tipo de défice ou perturbação no desenvolvimento”, contou, adiantando que “o diagnóstico e a intervenção dirigida o mais precocemente possível melhora o prognóstico”.

 



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