Em tempos de crise pandémica o Desporto e a Atividade Física como lufada de ar fresco

Sabendo que o Desporto e a Atividade Física sempre comportam no eixo da sua identidade um apelo às normas de conduta que se reportam à qualificação duma vida saudável, creio que neste momento ainda mais se torna prioritário para fazer vencer esta crise pandémica que a todos nos inquieta.


Na sua vertente operativa, encontramos a quem se verga pela dinâmica empreendedora da sua prática, a resistência à doença, ao espírito de conquista dos valores coletivos, de cidadania, satisfação de necessidades lúdicas, desenvolvimento das capacidades coordenativas, autodisciplina, a expressão e desenvolvimento da personalidade, oportunidade de superação, educação da vontade, em resumo, o Desporto pode funcionar como catalisador privilegiado para o aumento da consciência, numa maior sintonia do indivíduo e a sua correspondência da consagração com a vida.
 

 

Sabe-se que em termos de jovens estudantes, alunos com sustentada e bem orientada prática desportiva, aumentam a possibilidade de atrasar o aparecimento da fadiga, maior capacidade cognitiva pelo aumento de sinapses neuronais (troca de informação entre células do sistema nervoso), aumento de produção de endorfinas (os químicos para a motivação e para a felicidade), melhoria do estado de humor e aumento de plasticidade cerebral (capacidade de raciocínio), fazendo elevar os níveis de concentração.
 

A propósito, num trabalho realizado há uns anos em alguns concelhos do distrito do Porto, foi verificado que alunos do 2.º ciclo do ensino básico que, para além das aulas de Educação Física e Desporto desenvolviam atividades em Clubes Desportivos e cujos treinadores tinham formação integral de valores educativos, cerca de 84.2% obtinham melhores avaliações às disciplinas de Matemática e Física.
 

Mas o que vemos hoje? O Desporto e Atividade Física que bem poderia ser como uma lufada de ar fresco e alimento para os audazes, acaba por se transformar em veneno e fuga para os temerosos.
 

Neste tempo de pandemia, os parques infantis estão encerrados e como sabemos, brincar para as crianças é a lógica do apelo para a transcendência, como comer é a lógica do apelo para a sobrevivência. O Desporto Escolar praticamente não existe, a não ser algumas modalidades de raquete que com espaço e balneários disponíveis, vêm vedado o elemento competitivo. A própria disciplina de Educação Física se vê altamente condicionada pela distância e impossibilidade de contacto e no que se refere à dinâmica do jogo, o individual sobressai sempre em prejuízo do coletivo, quando dentro das regras sanitárias se poderia elaborar um quadro competitivo interno e inter-escolas com base em Skills Técnicos ou apuramento de rankings de desenvolvimento cognitivo ou motor. É claro que isso empreende compromisso e labor e sempre parece mais fácil o contacto via on-line…para quem estiver disposto a ouvir!…para não falar dos horários por vezes irracionalmente desajustados e que duma forma geral entram na galeria do oportunismo instrumental.
 

Temos alunos preparados para uma espécie de “preguicice aguda”, renunciando ao esforço, ao suor, à dor, ao sacrifício, ao abandono da responsabilidade, do cumprimento das regras, da capacidade de emulação e superação para se tornarem mais fortes, mais ágeis, mais resistentes, mais inteligentes pela conversão do ato em pensamento e do pensamento em ação.
 

No que respeita ao Clubes, tem-se notado uma desistência de atletas abismal (reportam-se em 200 mil, que poderão ser muitos mais…), sem haver uma clara definição de orientação nos treinos. Tem-se verificado que nuns Clubes são planificados treinos via on-line, noutros, porque a necessidade de cotização entra para socorrer os limites da despesa de gastos essenciais e prioritários para a sua continuidade funcional, lá vão realizando a receio algumas tarefas de treino condicionado, porque como sabemos, quanto aos quadros competitivos, isto é pertença de gente sénior!… Enfim, os governantes escusam-se a responder de forma categórica e culpam a D.G.S. pelas normas orientadoras que, diga-se de passagem, sem querer ferir a veracidade das mesmas, temos constatado uma díspar para não dizer anedótica informação no coro das inquerências discricionárias.
 

Quando nos entra ao conhecimento que numa média de 3 a 10 crianças, entre 2 e 5 anos, 12.5% são obesas e entre 7 e 8 anos a prevalência para o excesso de peso é de 32% e 14% de obesidade e entre os 11 e os 15 anos a prevalência para o excesso de peso é de 30% e com uma percentagem de obesidade de 11.5%. É claro que a diabetes, a hipertensão arterial, o colesterol etc., têm aqui uma porta aberta para o futuro.

Num país em que somente 23% dos portugueses praticam desporto (19% de forma regular e 4% ocasional), sendo 34 em 100 homens e apenas 4 em 100 mulheres e 77% referem como primeira ocupação ver T.V. e jogos de computadores…estamos bem servidos!…
 

É claro que de quando em vez a imagem do desporto nacional é festejada de júbilo e louvores que nos arrancam o coração de felicidade, como a título de exemplo verificamos os singulares êxitos no automobilismo, motociclismo, canoagem, judo, ciclismo…mas isto, sendo real e digno de ser realçado, não representa unicamente o desporto nacional. Os governantes apregoam louvores, estalam os foguetes em girândola…mas por vezes agarrámo-nos às canas e caímos que nem tordos sem direito a ser amparados.
 

A realidade nacional é que somos dos países colocados na cauda da Europa em termos de prática desportiva, embora no que consta ao domínio das artes, da ciência, da cultura e em especial do desporto via treinadores, investigadores, jogadores, empresários, etc…conseguimos ser os melhores entre os melhores. Parece ser de facto um contrassenso, a merecer uma aturada reflexão.
 

Sou um otimista convicto…sigo o testemunho de Horácio, de Churchill, de Watson…pois “creio que quem rema contra a maré é que conhece a sua força e também vejo uma oportunidade em cada calamidade, tendo esta o dom de despertar talentos que porventura estavam adormecidos”. Os fracassos e as crises podem transformarem-se numa base para acudir ao sucesso, porque viver é isto…transformar a adversidade em oportunidade, transportando na alma as pegadas da experiência vivida e no coração as causas que debitam o suor para vencer, indo ao fundo da alma e sacar o que lhe resta para atacar o futuro.
 

Muitas e repetidas vezes tenho evocado, citando Victor Hugo: “o futuro para os fracos é impossível…para os medíocres é desconhecido…para os valentes é a oportunidade”!...
 

Estamos em tempos de comemorar a restauração, somos pertença dum povo valente e imortal e brevemente teremos Natal … EU ACREDITO!...

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário – ISMAI.



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